Em uma sociedade moderna em que há cada vez mais pressão por produção e formação técnica, a saúde mental ficou de lado – e as consequências são devastadoras
“Mentiram para mim na entrevista. Não me disseram que seria assim”, ouvi durante uma sessão com um paciente contratado para a área de supervisão de uma empresa. “É pressão em cima de pressão. Eu não estou aguentando mais!”, foi o que ouvi de uma jovem que trabalhava em um escritório de contabilidade há menos de um ano.
A Síndrome de Burnout ou Transtorno do Esgotamento Profissional não é reconhecida pela Classificação Internacional de Doenças em sua décima edição, a CID-10, mas já surge em sua nova edição, a CID-11, desde 2022, passando a ser considerada uma doença relacionada ao trabalho. Tal transtorno é caracterizado por ser uma condição resultante do estresse crônico no contexto de trabalho e possui três dimensões:
1) sensação de exaustão ou esgotamento de energia;
2) maior distanciamento mental da atividade laboral ou negativismo ou cinismo em relação ao trabalho;
3) sensação de ineficácia e de falta de realização.
Em outras palavras, o paciente fica mais estressado e deprimido. Sente-se ineficaz e com piora de sua autoestima. Sua produção não é mais a mesma e passa a ficar mais irritado e/ou deprimido. Ir trabalhar vai ficando cada vez mais difícil e, aos poucos, os sintomas vão se espalhando para as outras áreas da vida do paciente, com prejuízos na vida social. Podem ocorrer sintomas ansiosos e de pânico ao ter que ir trabalhar. Há casos relatados de suicídio motivado por burnout.
Embora a CID-11 deixe claro que o Transtorno de Esgotamento Profissional precisa estar relacionado com a questão laborativa do paciente, podemos identificar sintomas da doença também em outros contextos, como as donas de casa e mães. Não é incomum que uma mulher entre no consultório referindo a sensação de estafa emocional e sensação de incapacidade frente a diversos afazeres domésticos e cuidados com a prole, muitas vezes com pouca ou nenhuma ajuda ou compressão do companheiro. Já no contexto trabalhista, é importante que o psiquiatra identifique o nexo causal e seja capaz de avaliar se o trabalho causa, contribui ou piora uma doença já existente. Muitas vezes é importante que o paciente seja afastado de suas atividades para que possa realizar o seu tratamento.
O tratamento da Síndrome de Burnout consiste em psicoterapia e, muitas vezes, medicações. A avaliação por uma psiquiatra qualificado é primordial para que a doença não progrida e para que o paciente melhore o mais rápido possível. É importante também realizar o diagnóstico diferencial entre outras doenças mentais.
