
Esta não é uma queixa incomum no consultório. Motivo de angústia para muitos pacientes que não conseguem se livrar da compulsão em pornografia, este quadro costuma ter solução
Esta é uma história real.
A queixa acima foi feita por um paciente que eu já acompanhava há quase um ano. Ele vinha se tratando por um quadro depressivo moderado devido a outras questões que não vêm ao caso agora, e já estava em remissão de seus sintomas já havia alguns meses. Apesar de me conhecer há um tempo e termos uma boa relação médico-paciente, ele ainda sentia-se envergonhado em trazer sua compulsão em pornografia às nossas consultas.
Acredite, isso é mais comum do que você pensa. Os dados de um dos sites mais populares de conteúdo adulto revelou que, em 2022, o Brasil ficou no 10º lugar entre os países que mais consomem pornografia no mundo. O vício em pornografia é um tema que, mesmo em ambientes de saúde considerados “seguros” e livres de estigmas, costuma ainda ser visto com certo tabu. Este paciente específico referiu que há mais de três anos consumia pornografia diariamente, mais de uma vez por dia, e estava observando seu relacionamento deteriorar, pois não conseguia mais ter relações sexuais com a companheira, estava evitando sair com amigos e não ia para as confraternizações da empresa – tudo para poder consumir conteúdo pornográfico.
Um estudo realizado no Reino Unido mostrou que a idade média para o início da exposição à pornografia costuma ser por volta dos 12 anos. Sabemos que quanto mais precoce o acesso, maiores as chances de se desenvolver uma compulsão por conteúdo pornográfico na idade adulta. Outros estudos demonstraram que os consumidores de pornografia possuem dificuldade em distinguir o sexo pornográfico do sexo real, muitas vezes passando a adotar noções não saudáveis sobre sexo e relacionamento e a ter posturas mais sexistas/machistas e, muitas vezes, de risco. Além disso, com o tempo passa a ocorrer o fenômeno da habituação, que é quando a excitação sexual que o paciente tinha no início passa a diminuir com o tempo e faz com que ele precise buscar novos tipos de pornografia, geralmente mais pesados.
O consumo frequente de pornografia faz com que um neurotransmissor cerebral seja liberado no cérebro de forma excessiva, o que aumenta o risco de dependência. Tal neurotransmissor é a dopamina, responsável pela sensação de prazer e recompensa em algumas áreas do cérebro. A liberação constante de dopamina faz com que o paciente tenha cada vez mais dificuldade em controlar o comportamento prazeroso: surge assim a compulsão ou vício em pornografia. O mecanismo é muito semelhante ao consumo de álcool, cigarro e outras drogas. Com isso, o consumidor de pornografia passa a se desinteressar pelo sexo real, com agravamento de problemas sexuais e de relacionamento.
A compulsão por pornografia está relacionada com disfunção erétil, ejaculação precoce e ejaculação retardada até mesmo em jovens. Isso passou a ocorrer com este paciente que citei no início deste texto. Ele não conseguia mais ter ereções com sua esposa pois não sentia-se estimulado como sentia-se com a pornografia. Estava deixando de sair com amigos e estava com prejuízos no trabalho porque os filmes não saíam de sua cabeça. Imagine como ele estava angustiado! Tinha vergonha de si e demorou quase um ano para trazer isso em consulta. Chegou a mencionar até mesmo pensamentos de morte devido a tamanha angústia.
Felizmente existem tratamentos para os diversos tipos de compulsão, inclusive a de pornografia. Primordialmente a avaliação por um psiquiatra é fundamental para estabelecer o grau da compulsão e o melhor tratamento, que consiste em psicoterapia e tratamento farmacológico. O tratamento leva tempo e requer paciência, empatia e confiança.
